A mãe do surfista Erick se chamava Linda.
Viúva há mais de sete anos, ela e Erick moravam, desde então, na casa que seu avô havia construído. Professora da escola pública, Linda era linda mesmo! Erick nunca mais a viram acompanhada. Tinha muitos pretendentes e muitas mulheres falavam mal dela na cidade.
Marvin Wilson era louco por ela. Já tentara se declarar várias vezes. Mas, Linda não estava nem aí. Fazia o seu trabalho com competência e tinha o coracão fechado para relacionamentos. Erick sabia disso e deixava rolar…
Estavam no período de férias, a cidade estava lotada de turistas. Linda pegou o carro e seguiu em direcão ao centro. A Rodovia do Sol estava completamente engarrafada. Pessoas de diversos lugares do país! O calor era intenso. Bem devagar…o trânsito fluía. Eram duas horas da tarde, horário de verão.
Em seu carro branco, antigo, conversível – a banheira – como Erick chamava, deixava o sol bater intenso. Usava uma calça e uma camiseta branca. O cabelo louro, chanel, frisado, balançava à brisa. Ela era a única coisa que refrescava. Linda parecia uma miragem, branca e reluzente, naquele sol.
O que ela queria fazer? Dar uma volta…ver pessoas, talvez ir ate a Praia do Morro…a Praia da Cerca…voltar, passar na padaria e comprar o pão. Programa de professor nas férias. Todos os seus alunos haviam sido aprovados com boas notas. Ela havia se dedicado.
Mas aquela lerdeza fazia com que qualquer um desanimasse de sair de casa. Era sempre assim nas férias de verão…Esta era a época do ano em que muitos dos moradores da cidade de Sta. Mônica e de Guarapari soltavam palavrões pelas ruas, irritados com a presença de tantos turistas que traziam dinheiro para a cidade. Uma vantagem para a prefeitura, mas para onde ia o dinheiro? Nunca havia uma infra-estrutura decente para receber tanta gente. Chegava a faltar água naqueles dias quentes.
Linda preferiu não pensar no assunto. Gostava do calor e da cidade. De certa forma, estar perto de pessoas que vinham de tão longe, só para se divertir ali, exalava uma energia, uma vibe que contaminava o ar…tudo era motivo de riso, de comemoracão. Até mesmo aquele engarrafamento naquele sol intenso.
Passou por Muquiçaba, um bairro de nativos, passou pelo supermercado Sto. Antônio. Pensou em ir na padaria primeiro, virou o carro de repente…
Um ruído seco, dor, baque…Ela abriu os olhos. À sua frente um veículo preto, Audi, com os vidros fechados…De onde havia surgido aquilo? A batida havia amassado a lateral dos dois carros.
Respirou fundo. Abriu a porta, firmou as pernas no chão e saiu. Bateu nos vidros escuros do carro ainda fechados.
- Ei! Não vai sair ninguem daí?
Ela cruzou os bracos numa atitude de indignação. Algumas pessoas ja começavam a se aproximar por causa do acidente.
De repente uma fresta do vidro do carro negro se abriu e um pequeno cartão apareceu. Linda imediatamente pegou. Ouviu uma voz.
- Não se preocupe. Me ligue, eu pagarei o conserto.
Ela não viu ninguém. O audi manobrou rapidamente com a frente amassada e foi embora. Ela ficou pasma. Fazer o quê…Respirou fundo e foi para o seu carro. Agora a multidão murmurava. Alguém perguntou se ela estava bem. Não respondeu. Fim do passeio e nada de pãezinhos. Entrou no carro e foi pra casa.