Agora o sol brilhava forte. Carros importados estacionados na reserva. O som era alto, dava pra ouvir do outside.
- Vou descer nessa!
- Falou mano!
Poucos surfistas se aventuravam nas águas de mar aberto da reserva do Setibão. Era ali que o sol nascia…
Freee surfers! Entrar e sair do mar através da corrente era um segredo conhecido por poucos. Pura aventura mesmo!
Erick desceu a onda, remou através da corrente e saiu no style. Era bonito vê-lo. Moreno, o cabelo sem corte, uma franja escorrida. Usava bermudão preto e uma camiseta branca. Sua prancha era azul.
Na areia, playboys e suas minas patys. A maioria deles cruzava a Rodovia do Sol, vindo da capital para chegar ao Setibão. Fincavam suas pranchas como que definindo um território. Tiravam a maior onda sem quase nunca entrar no mar. Rindo alto e fumando um, exibiam uma parafernalha importada (carros e roupas) que impressionava.
Erick comprimentou alguns, passou em meio a outros, seguiu em direcão à Praia das Pedras. Afinal, seu caminho era longo.
Na praia de Setiba ele preferia não pegar o ônibus. Ia pela avenida, movimentada com o grande número de turistas que, pela manhã, seguiam em direcão à areia.
Passou pela igrejinha e foi para o canal. Nesse caminho, alguns pescadores que há muito haviam retornado da pesca limpavam as redes preguiçosamente, numa conversa baixinha que parecia não ter fim.
Músicas sertanejas gritavam de um pequeno barraco – um bar – que ficava ao lado da pequena ponte. No meio da vila, passava um rio que descia do mangue e mais à frente invadia, através de ondinhas mais escuras, o mar sempre calmo da praia de Sta. Mônica.
Tudo nesse trecho parecia pequeno, simples e bonito. Havia um sossego entre as pessoas e aquele lugar.
Erick atravessou Sta. Mônica, pegou a Rodovia do Sol. Não se importava por ter que andar tanto. Gostava do caminho, gostava de pensar.
Passou por entre o casario popular, subiu o morro e finalmente alcançou a rua asfaltada. Agora as casas eram poucas, maiores, gramados na frente, flores e árvores em quintais cuidadosamente organizados atrás. Cães de raça latiam, recebendo-o com alegria. Ninguém…só silêncio e vento.
Ao longe podia-se ver o terreno verde da fazenda. Era a maior propriedade por ali.
Desceu o “tobogã” como era conhecida a sua rua. Formada por dois morros altos e uma descida forte, era exatamente um tobogã, duas ondas enormes de asfalto cercadas de um lado e de outro por imensos eucaliptos.
Erick morava numa casa, no alto do segundo morro. Poucos vizinhos, muito vento.
Na varanda havia um chuveiro onde lavou com cuidado a prancha deixando-a de lado. Fechou os olhos. A água escorreu pelas costas e pelos cabelos lisos. Ele tinha as costas largas e fortes.
Milhões de pontinhos frios escorrendo por todo o corpo, numa sensacão deliciosa. Água doce…
Ao abrir suavemente os olhos ele a viu. Aquela figura loura, fina, parecia uma ilusão. Estava ali, parada, olhando para ele.
Fechou o chuveiro. Pegou a prancha e guardou no local certo. Ela continuava olhando.
Balancou os cabelos, alongou os braços como costumava fazer. Olhou para ela.
- E ai? Perguntou.
- Eu vim me despedir.
A voz era suave. Angel era praticamente uma criança. Naquele dia, usava saia jeans, uma blusinha branca e sandalhas de couro. O cabelo louro era longo, acabava na cintura.
Erick continou olhando, quieto. Angel virou as costas e desceu o tobogã.
Quando ele se seu conta, olhou para a rua. Lá estava ela, ao longe, no alto…aquela figura loura, fina, uma ilusão no deserto do meio-dia.
Ele entrou em casa e foi dormir.